Monday, January 17, 2011

recontacto.

como fosse ontem, aquelas cartas, aquelas músicas, tuas palavras tão exatas pedindo-me para que ficasse, teus olhos tão docemente fitando-me como me decifrassem. como fosse agora, vejo frente a mim a tua imagem. e já não temos mais aqueles dezesseis anos, e já não temos mais aquelas músicas, aquelas cartas, temos somente agora as minhas palavras que imploram, em silêncio, enquanto fitamo-nos e devoramo-nos com os olhos, elas choram de tão necessariamente pronunciadas, e elas pedem, procuram minhas mãos as tuas em meio a cada sílaba gritada, dizem: volta, entra por essa porta e permaneça, por favor, em mim.

Wednesday, November 03, 2010

bem leve, leve, revele.

não sei se foi por conta do barulho das ondas ou dos grãos de areia que se enterraram nos meus dedos. talvez tenham sido meus pés molhados, talvez o meu desapego. sei que ali aquele vento me levou e envolveu. e me entendeu. e eu só queria me fazer ventável como ele, só queria ser leve e poder, sorrateiro, soprar uns fios dos teus cabelos. e te sussurrar aquela velha história sobre os deuses do mar, sobre os piratas, as mensagens em garrafas perdidas nas águas.

talvez tenham sido os meus medos. talvez, o desandar do meu desespero. foi como se ali eu tivesse asas. senti-me ismália - sem pés, nem pesos, nem mágoas.

queria que as palavras que nós nos dizíamos não fossem pesadas.

eu queria ter crescido e invadido as tuas janelas, quebrados as tuas paredes, derrubado as tuas portas. mas os teus limites fizeram essas raízes nascerem tortas.
não puderam vingar.

eu não era uma avenca.
eu precisava ser imensa, como o mar.

quantas vezes eu quis pegar na tua mão desejando somente que ela não me detesse. que não me podasse, não me prendesse. eu só queria dos teus dedos umas carícias. que não me apontassem, não me ferissem. que não me julgassem.

quantas vezes eu quis pegar na tua mão.
e não o fiz.

Saturday, September 18, 2010

Parecíamos um desses casais cuja comunicação real deixou de existir há tempos, e que enchem a boca de comida por não terem mais o que falar. Parecíamos um desses casais dos quais temos pena nos restaurantes. Sentados frente à frente, ela e eu, a comida posta recheava nossos pratos. Nossas almas morriam de fome. E o meu alimento estava ali, bem à minha frente, dentro daqueles olhos onde nunca cansei de me saciar. O problema é que já não nos digeríamos mais.

Wednesday, August 18, 2010

foi assim, observando-me por horas a fio frente àquele espelho que me devorava que pude, depois de tantos anos de convivência comigo mesma, reparar as sardas claras que tenho sobre minhas bochechas. eu sei, sardas não nascem conosco, apesar de acompanharem-nos até a morte depois de nascidas. Passa-se que eu não sei datar quando exatamente elas passaram a me acompanhar. eu não sei contar os anos em que sofreram comigo a ação do tempo, quantos ventos nos rasgaram juntas, quantas lágrimas sobre elas escorreram. eu não vi. e elas estavam aqui, bem debaixo dos meus olhos. E eu não vi.

Thursday, August 05, 2010

um negativo em noventa e três.

a última foto que tenho contigo data de noventa e três. tenho guardado o negativo e qualquer hora uso pra fazer uma cópia pra ti. não é estranho? ainda usávamos filmes, tínhamos um limite de poses. é engraçado ver como as coisas evoluem, né?! estávamos na praia, neste dia. fazia um sol escaldante e você usava aquele biquini branco que eu sempre pedia pra não usar em público. você sabia que ele ficava todo transparente quando saía da água. mas parece que fazia só para me provocar. e provocava. eu não resistia a você, nunca consegui. acho que ainda hoje não conseguiria. é engraçado como algumas coisas simplesmente permanecem as mesmas. não acha? você tinha vinte e seis, eu estava a poucos dias dos trinta. e isso me assustava tanto! eu não queria fazer trinta anos. eu não queria assumir que com aquela idade ainda levava uma vida de um garotão de dezenove. você nunca se importou, você nunca me cobrou nada. e eu gostava das coisas daquela forma que eram. mas eu sabia que hora ou outra seria a minha vez de crescer. nessa foto, hoje eu vejo, já dava pra perceber que a tua barriga crescia. você estava tão bonita! como se estivesse mais viva, como se tivesse mais vida - e tinha mesmo. e hoje eu vejo essas fotos nossas, de nós dois, de nós quase três e fico pensando em como podia ter sido. acho que eu teria querido se você me perguntasse. acho que eu podia crescer ali junto contigo, junto com ele, ou com ela. você me disse que eu não tinha maturidade pra isso, que eu não estava pronto pra ter um filho. e se eu estivesse? e se eu me preparasse? e se eu quisesse? você não se importou mesmo. quando me disse já veio chorando, pálida, fraca. morta por dentro. sabe, hoje eu vejo que o nosso fim começou ali, que o nosso filho foi o motivo pra eu não suportar tudo aquilo. é que eu queria tanto que ele tivesse existido... não é que eu não te ame ainda hoje, é só que já fazem vinte anos e eu ainda penso em quão grande ele estaria, todos os dias. talvez estivesse agora na faculdade, talvez fizesse medicina, como eu, que aprendi tanto a dar valor a vida e me obrigo todos os dias a salvar alguma, e choro feito criança sempre que perco uma luta dessas. talvez ele se parecesse contigo, e tivesse os teus olhos, e eu só consigo pensar, quanto mais eu penso, que independente de como ele fosse, por cada detalhe bonito ou imperfeito, eu o amaria ainda mais. você sabe, ana, você sabe bem por que eu não pude ficar contigo. eu tentei, juro. eu tentei tanto! mas eu fui me desvinculando, me perdendo, te soltando. não conseguindo, simplesmente. é engraçado como algumas coisas involuem. como a gente. não é?!

Monday, August 02, 2010

vinte e dois.

e mais uma vez me vejo só comigo no mundo, todo meu, o mundo, pra ser rasgado, adentrado, sentido até o último fio de cabelo. e mais uma vez me percebo pequena e forte, grande e frágil, só. E me olho e me enxergo assim, implorando por qualquer coisa que eu possa sentir, sorrir, chorar. qualquer coisa que me faça arrepiar a pele e a espinha, que me faça sentir minha, plena, toda, minha. e agora eu confio mais nos meus pés que arriscam uns passos mais firmes. eu posso ver na palma das minhas mãos as linhas do meu destino. eu posso escolher entre ficar e não ter. e sinto que agora eu posso ser aquilo que quiser, e que a minha vontade não tem nome, não tem sexo, não tem cor. e o sal que escorre dos meus olhos não tem gosto, quem se deita todas as noites comigo não tem rosto. e mais uma vez eu me olho assim de frente nesse espelho que me reflete, essa imagem que me acompanha, esse corpo que me suporta. e agora, só agora, eu tenho a coragem de tocar a minha propria boca e calar somente quando eu quiser calar. e do mundo que deixo pra trás a cada instante, dessa vez, eu não vou te levar. você vai ficar junto com as memórias que eu escolhi não lembrar. eu vou te condenar ao preto e branco, ao sépia, ao tempo que vai te desbotar ano a ano junto com os teus cabelos brancos. dessa vez eu vou só comigo, como sempre fui e fingia não perceber. e vou encher as paredes do quarto de fotografias minhas, eu vou encher as minhas paredes de mundo. e vou escrever sobre o que vejo, tudo aquilo que reparo, os detalhes rachados de cada quadro. e vou chorar dentro dos panos e sorrir de vez em quando. eu vou descobrir como é sentir, mais uma e tantas outras vezes, eu vou me descobrir. e me transformar, transmutar, desfigurar pra me pintar em cores de novo. eu também vou desbotar com o tempo, eu também vou rachar. talvez eu até quebre. talvez eu até gele. mas eu vou sempre lembrar do cheiro que o óleo fazia em cada cor pincelada nessa tela que se chama paula, e vou saber descrever detalhadamente a vivacidade de cada tom que escolhi. e me lembrar de todas as vezes em que rachei e chorei, e de como cresci enquanto descobria como me juntar de novo. eu vou viver. e vou lembrar. nao importa o quanto isso dure, a vida, ela vai ser vivida e contada. mesmo que ninguém nunca saiba, eu vou viver para contar.

Friday, July 23, 2010

o primeiro parágrafo de alguma coisa.

E deus pediu para que todos ficassem.
Foi então que o povo chorou. Em meio à poeira, às crianças famintas, em meio às mulheres grávidas sem seus homens, aos membros agora únicos de toda uma família, deus pediu para que aquele povo ficasse. Ali, em meio às ruínas, ao pó, ao resto daquelas vidas, sobrevidas, deus disse: povo, fica.